Seja por desejo pessoal ou para atender a cobranças da sociedade, cada vez mais o empreendedor, independente do porte do empreendimento, é impelido a colaborar em ações de responsabilidade social. Contribuir com projetos de entidades filantrópicas pode melhorar a forma como a empresa é enxergada por clientes e fornecedores, além de ser gratificante para o empreendedor. Porém, é importante atentar a alguns cuidados.
Antes de mais nada, é preciso entender esse tipo de envolvimento como um investimento social. Isso porque, não há, na prática, incentivos fiscais para o micro ou pequeno empreendedor que queira fazer doações a projetos sociais. A legislação prevê dedução destas despesas no Imposto de Renda a pagar apenas para empresas optantes pelo Lucro Real, regime tributário geralmente seguido somente por grandes corporações devido ao alto custo operacional.
Além disso, para ter efeito, a participação deve ser de longo prazo. “O compromisso para melhorar a vida das pessoas ou da comunidade do entorno não é algo do qual se possa desistir do dia para noite; uma vez iniciado é difícil retroceder”, diz a professora da pós-graduação em Direito e Legislação e Direitos Humanos, Cidadania e Políticas Públicas da PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo) e do curso de Gestão de Projetos Sociais do Senac-SP, Paula Raccanello Storto.
Paula lista as principais recomendações para quem deseja que o investimento social tenha rendimentos verdadeiramente positivos:
Encontre a vocação social da empresa - é preciso identificar qual é a área de atuação social mais próxima das características da empresa. Ou seja, selecionar dentre diferentes projetos - voltados à educação, saúde, cultura, esportes ou inclusão - qual faz mais sentido para os valores e cultura da empresa.
Analise as diversas formas de participação - não é só por meio de doações em dinheiro que a empresa pode se envolver em projetos sociais. Às vezes, disponibilizar produtos ou serviços está mais associado com a vocação social definida. Como exemplo, uma floricultura pode oferecer a decoração para os eventos de determinada entidade.
Garanta o aval dos sócios - para evitar questionamentos futuros, todos os sócios devem estar de acordo com o direcionamento de recursos para a atuação beneficente da empresa. O melhor é oficializar esta decisão em ata registrada em cartório, descrevendo as linhas gerais de como se dará a participação da empresa e quais os limites e condições para isso.
Não tenha como objetivo primordial obter resultados em marketing - o envolvimento com projetos sociais pode trazer, como consequência indireta, benefícios para a marca, pois a impressão que clientes e fornecedores têm sobre a empresa tende a melhorar. No entanto, esse não deve ser o fator motivador porque, além de não haver garantia de retorno, em algum momento essa intenção acabará sendo percebida e a rejeição pode ser mais prejudicial que a aprovação inicial. Investimentos com objetivo de marketing devem ser direcionados em ações específicas para esse fim.
Exija e guarde comprovantes - doações em dinheiro devem ser feitas via transferência bancária, que identifica de forma direta, clara e documentada quem enviou e quem recebeu o recurso, mas deve-se também exigir o recibo da entidade beneficiada. Já serviços prestados ou produtos cedidos devem ser quantificados ao correspondente ao preço de custo da empresa, desconsiderando a margem de lucro, e a entidade deve emitir recibo detalhando o que foi feito ou entregue citando o respectivo custo total. Não se esqueça de anexar qual o parâmetro utilizado para se chegar ao valor indicado no recibo. Esta informação não precisa ser repassada para a entidade, mas deve estar clara nos comprovantes. Recomenda-se, ainda, o registro de tudo em fotos ou vídeo porque, além de possibilitar a divulgação da atuação, pode comprovar o destino dos recursos, importante mesmo para quem não tem sócio. Deixar clara na contabilidade da empresa a parcela direcionada a investimentos sociais ajuda a ter mais controle e facilita a prestação de contas seja para um sócio entrante ou para solicitar empréstimos bancários, por exemplo.
Tenha cuidado na escolha da entidade - não deixe de verificar a idoneidade da entidade a ser beneficiada. Imagine descobrir que recursos retirados da empresa estão servindo para financiar atividades irregulares ou sendo desviados de seu objetivo final, além do risco de ter o nome da empresa listado entre os doadores de uma entidade fajuta.
Efetue a colaboração participativa - não basta doar, é essencial se envolver com a ação social e medir os resultados. Isso porque, a empresa deve se envolver com entidades que promovam, efetivamente, a transformação da realidade.
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