São muitas as opções existentes para quem deseja ingressar no mundo empresarial por meio de uma franquia. Dados da ABF (Associação Brasileira de Franchising) mostram que o Brasil fechou o ano de 2009 contabilizando 1.643 redes franqueadoras, distribuídas em 12 grandes áreas que abrangem mais de 75 segmentos. Das já tradicionais marcas do setor de alimentação, passando por calçados, cosméticos, serviços automotivos e chegando a softwares e brinquedos, são 79.988 unidades franqueadas oferecendo os mais variados produtos e serviços.
O setor é promissor. É o que garante Ricardo Camargo, diretor executivo da ABF. "O Brasil tem ótimas possibilidades de crescimento. Com faturamento de R$ 63 bilhões registrado no ano passado, o franchising representa 2,1% do PIB (Produto Interno Bruto) brasileiro, enquanto nos EUA este percentual chega a 20%. A perspectiva é a de que temos potencial para chegar a 8% ou 10% do PIB", afirma ele.
Camargo aposta no crescimento das redes voltadas para o Turismo, com a realização da Copa de 2014 e das Olimpíadas em 2016 no Brasil. "Alimentação, vestuário, lazer e saúde são outros setores beneficiados, caso o nível de emprego e reajustes salariais acima da inflação se mantenham", prevê. Ele destaca ainda a boa fase da Educação com a maior busca por cursos profissionalizantes.
Além do potencial desses setores, há ainda algumas vantagens que podem favorecem o empreendimento. Entre elas, Camargo aponta as compras em rede, que permitem uma melhor negociação junto a fornecedores, a verba de marketing superior à de um empreendimento individual, o apoio da franqueadora, e uma média de 36 meses para retorno do investimento inicial. Ainda, sim, há alguns desafios – os mesmos de uma empresa tradicional – que as franquias precisam enfrentar. "pressão de custos; alta carga tributária e o emaranhado da legislação fiscal e contábil", aponta o diretor executivo. O diferencial, para ele, é que o Brasil é um dos poucos países do mundo que possui uma lei específica para este tipo de empreendimento. A Lei Nº 8.955, de 15 de dezembro de 1994, regulamenta a relação entre franqueadora e franqueado, estabelecendo os diretos e deveres das partes. (Veja a íntegra em: http://www.planalto.gov.br/CCIVIL/leis/L8955.htm)
Esta modalidade, na opinião de Camargo, é uma forma mais estruturada de se iniciar um empreendimento. "O ritmo da experiência gerencial ocorre de forma mais acelerada na franquia. Enquanto a maturação em um negócio tradicional leva quatro ou cinco anos, a supervisão oferecida pela franqueadora, com orientação, treinamento, apoio contábil, faz com que em um ano o empreendedor já esteja plenamente habilitado a tocar o negócio", explica ele. Números da própria ABF comprovam esta afirmação e relevam que o índice de mortalidade de uma unidade franqueada é de 1% frente aos 22% vivenciados por empresas unitárias que fecham suas portas antes de completarem o segundo ano de atividade.
Como escolher uma franquia
Com valores de investimento (taxa de franquia somada ao capital necessário para instalação mais capital de giro) tão díspares como R$ 7.500 (para um negócio voltado para o cuidado de idosos e crianças) e R$ 3 milhões (academia de alto padrão), a escolha de uma franquia não é algo trivial. São tantos os aspectos a serem analisados que existem empresas especializadas em ajudar quem deseja adquirir uma unidade franqueada, mas não sabe por onde começar. Ana Vecchi, diretora da Vecchi Ancona Consulting, é uma dessas especialistas e dá dicas importantes para quem quer se aventurar nesta modalidade de gestão. Confira:
Por que comprar uma franquia?
Ana recomenda uma reflexão profunda e sincera dos motivos que estão levando alguém a pensar na compra de uma franquia. Nos seus vinte anos de experiência, ela já se deparou com muitos casos nos quais o real fator não tinha nada a ver com os relacionados à constituição de um empreendimento. A sensação de que assumir uma franquia representa uma "guinada na vida" faz com que muitas pessoas procurem este tipo de empreitada quando estão emocionalmente abalados, como, por exemplo, após um divórcio ou a perda de emprego. "Já acompanhei o caso de um rapaz que queria abrir uma franquia em outro estado só para ficar o mais distante possível dos pais", exemplifica a consultora, que, nessas situações, recomenda ao interessado que tire umas férias e faça terapia para se recompor emocionalmente antes de ir em frente com a ideia da franquia. Caso contrário, sobrarão frustrações que levarão ao fracasso.
Outra interpretação errônea com relação à franquia é a de que o modelo de empreendimento permite um ritmo de trabalho mais flexível do que em um emprego. "Mulheres entre os 28 e 32 anos de idade passam a considerar a possibilidade de largar seus empregos como executivas ou autônomas e partir para a franquia porque querem ser donas de seus horários, pretendem ter filhos e acham que poderão levá-los à loja de chocolates ou de acessórios que sonham em montar", ilustra Ana. Doce ilusão. "A dedicação é intensa e inegociável", sentencia.
Quem pensa em ter um ponto num Shopping Center, por exemplo, irá trabalhar os 365 dias do ano, das 7 horas (horário de chegada dos primeiros empregados para organização da loja) à meia noite (para, após o fechamento aos clientes às 22h, verificar o estoque, fechar a movimentação do dia, efetuar limpeza, alterar vitrine). Nas lojas de rua o pique exigido não é diferente, por conta da abertura em horário ainda mais cedo do que o do centro de compras. "E nas datas festivas trabalha-se dobrado. Ela poderá estar ausente até mesmo na comemoração do Dias das Mães da família", alerta a consultora. "Antes de três anos à frente do negócio, é praticamente impossível delegar este controle, mesmo para um funcionário de muita confiança. No franchising, o ditado que diz que o olho do dono é que engorda o boi é uma realidade".
Então, quer dizer que no quarto ano já é possível dar uma descansada? Provavelmente, não. "Depois de dominar a operação, a pessoa já estará 'contaminada' pelo vírus deste modelo e vai querer ter outra loja, começando tudo de novo. E só vai sair diretamente da frente do negócio com três ou quatro operações e, aí então poderá ter gerentes e supervisores com os quais dividirá o comando".
Escolhendo o ramo: é preciso se identificar com a atuação
O primeiro passo para a escolha da franquia se dá pelo ramo de atuação, que deve ser algo com o qual o interessado se identifique e se enxergue trabalhando com aquilo. "Não adianta ser um chocólatra e pensar em uma loja de chocolates, mas ter horror a ficar atendendo no balcão. Da mesma forma que adorar criar pratos elaborados para os amigos não tem nada a ver com o dia a dia de operação de um fast food", compara a consultora. "Na verdade, não será possível criar absolutamente nada e a rotina será ir, às 4 da manhã, no Ceasa, comprar legumes e verduras. Não há o menor glamour".
Capital inicial: encontrando o investimento possível
Uma vez escolhido o ramo, é o momento de analisar, entre todas as opções existentes, aquelas cujos custos estão dentro da faixa do valor que se tem para investir. Geralmente, o franqueador impõe o percentual máximo do quanto poderá ser aportado na forma de um financiamento enquanto todo o resto terá de vir de recursos próprios. Independente disso, Ana recomenda que o financiamento não passe de 30% do total. "Fica pesado pagar a taxas da franquia, aluguel, funcionários, custos da loja, e ainda a parcela de um financiamento alto", alerta ela.
Elegendo a franqueadora: pesquisa, pesquisa e pesquisa
Descobrindo quais as marcas que estão dentro da margem de capital disponível, o interessado deve entrar em contato com todas elas e se cadastrar no processo de seleção mútuo durante o qual receberá todas as informações sobre o negócio e terá analisada sua condição de fazer parte da rede. Não há custo nenhum envolvido nesta fase. É indispensável a conversa com franqueados e ex-franqueados, que poderão dar uma visão realista do quão profissional é o atendimento da franqueadora; se os dados com relação ao faturamento previsto se confirmam na prática; quais as principais dificuldades na condução do empreendimento, entre outros pontos.
Ana recomenda que a pesquisa seja feita com o maior número possível de franqueadoras e que se converse com pelo menos 10 franqueados e ex-franqueados de cada uma delas. Dessa forma, o interessado terá um parâmetro de comparação.
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