É de encher os olhos de empreendedores de todos os portes os números apresentados como expectativa de geração de negócios com a realização da Copa do Mundo em 2014 e das Olimpíadas de 2016 no Brasil antes, durante e após os eventos. Obras de infraestutura como a ampliação de portos e aeroportos, melhoria da estrutura para a mobilidade urbana, reforma e construção de hotéis e pousadas, renovação e construção de estádios não poderão deixar de ocorrer. No caso da disputa futebolística, enquanto a bola estiver rolando, haverá muito o que oferecer aos esperados 600 mil turistas estrangeiros e 3 milhões de brasileiros que devem circular pelo Brasil durante os 30 dias da competição. E quando todas as medalhas da competição olímpica tenham sido entregues, será o momento de aproveitar os legados deixados por ambos os eventos.
Em todas estas fases há muitas oportunidades para micro e pequenas empresas. Alguns setores serão claramente mais impactados, como os de alimentação, transporte, recepção, hospedagem, entretenimento. Para estes, inclusive, o Ministério do Turismo anunciou o programa Bem Receber Copa, que pretende qualificar 306 mil profissionais do turismo (camareiros, garçons, recepcionistas etc.) até 2013, visando atingir padrão internacional de qualidade nos serviços turísticos. E o BNDES (Banco Nacional do Desenvolvimento) disponibilizou uma linha chamada Procopa Turismo que totaliza R$ 1,2 bilhão para financiar a construção, reforma, ampliação e modernização de hotéis. Apesar dos nomes dos projetos fazerem referência apenas à Copa, eles visam também as demandas surgidas com as Olimpíadas.
Apesar da ênfase no turismo, muitas outras cadeias serão direta ou indiretamente beneficiadas, como afirma o secretário extraordinário para assuntos da Copa do Estado da Bahia, Ney Campello. Para ele, mesmo as grandes obras de infraestrutura, geralmente conduzidas por grandes empreiteiras, puxam toda uma cadeia produtiva que engloba micro e pequenas. Ele também lembra que o Brasil vai viver uma extensa agenda de eventos paralelos, como seminários, congressos e encontros internacionais sobre arbitragem, medicina esportiva, segurança e inúmeros outros, além da Copa das Confederações em 2013, uma espécie de competição preparativa ao grande evento máximo do futebol, a Copa do Mundo. “Tudo isso irá exigir serviços de tradução e intérprete, motoristas de táxi bilíngües, ou seja, oportunidades para cursos de idiomas, especialmente inglês e espanhol”.
De toda forma, quem quiser aproveitar o potencial apresentado pela onda esportiva deve começar já. Aliás, na visão de Campello, quem ainda não começou, está atrasado. “Muita coisa já está em curso no Brasil e não é algo simples ou rápido planejar um negócio no sentido de identificar nichos e encontrar diferenciais”.
Preparação já começou
A CNDL (Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas) acredita nessa urgência. Tanto que já lançou o Projeto 2014 que tem a missão de ajudar o Brasil a se preparar para o Mundial, reunindo, produzindo e divulgando informações que mostrem as “oportunidades, os desafios e as ameaças em tempo de Copa do Mundo”. Desde julho e até outubro, cada uma das 12 cidades-sede receberá um seminário que debate questões como tecnologia da informação, infraestrutura tecnológica, segurança, telecomunicação, energia, comunicação e gestão de mega-eventos. E em 2011, uma grade de cursos de capacitação e treinamentos será disponibilizada por cada uma das 1.680 Câmaras de Dirigentes Lojistas espalhadas pelo País.
A iniciativa tem por base o fato de que essa multidão de visitantes irá consumir os mais variados produtos ofertados pelo varejo, segmento atendido pela entidade. “Este turista irá precisar de tudo, alimentação, roupas, calçados, medicamentos, eletroeletrônicos, souvenir”, afirma Roque Pellizzaro Júnior, presidente da CNDL. “E o pequeno varejo, que é a expressão maciça no sistema varejista brasileiro, é quem irá suprir isso e precisa estar preparado”.
Mas preparado para quê? Para tudo, é o resumo. Atender melhor, oferecer um mix de produtos adequado, estar preparado para receber pagamentos com cartões com bandeiras não utilizadas no Brasil, melhorar a exposição do produto. A lista de Pellizzaro procura contemplar todos os itens do ciclo de vendas. “Até mesmo a embalagem deve ser pensada de forma a possibilitar que o cliente leve o produto na viagem de volta sem danificá-lo”. Ele incentiva soluções criativas diante da barreira do idioma (e da constatação realista de que não é viável tornar bilíngue a força de vendas até 2014). Sugere ensinar ao menos os cumprimentos básicos para a equipe, acrescentar etiquetas em inglês e espanhol nas indicações dos produtos e até mesmo contratar um funcionário temporário que seja fluente nos dois principais idiomas. “Uma pequena farmácia pode dispor de um software que traduza os principais medicamentos para a forma como são vendidos em outros países”, exemplifica.
O perfil deste potencial consumidor também é diferente daquele que costuma frequentar os pontos turísticos brasileiros e deve ser levado em conta na hora de definir a estratégia para atendê-lo, como explica o consultor da carteira de serviços do SEBRAE-SP (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas do Estado de São Paulo), José Bento Desie, que descreve o torcedor típico das Copas: homem de bom poder aquisitivo, exigente, com idade acima dos 40 anos, viajando com amigos. A disposição a gastar é relevante. Pesquisa do Ministério do Turismo mostra que, durante o evento deste ano na África do Sul, 87% dos turistas pagaram a viagem com recursos próprios e gastaram em média R$ 11,4 mil, sem contar as despesas com passagem. O levantamento entrevistou pessoas de 69 países em nove cidades sul-africanas atraídas exclusivamente pela competição. Dos entrevistados, a maior parte formada por europeus, norte americanos e sul-americanos, 83% homens, 60% solteiros e 86% concluíram o curso superior.
O raio de extensão da Copa vai além das cidades-sede de sua realização. “Realizamos uma pesquisa e, pelo que mostram as três últimas copas realizadas, o turista-torcedor circula em um entorno de até 300 km da cidades-sede, o que potencializa o comércio e o turismo de outros municípios”, diz Pellizzaro. E é exatamente pensando neste deslocamento que o Sebrae-SP está fomentando 15 Circuitos Turísticos espalhados pelo Estado de São Paulo, capacitando empresários com a meta de gerar 300 oportunidades de novos produtos e serviços e de chegar a 200 empreendimentos com planos de negócios elaborados e executados também até dezembro de 2012.
Como se vê, a expectativa é de que todos os setores sejam movimentados pela onda esportiva. Haverá aumento da demanda por artigos de esportes e de equipamentos para a realização dos jogos, como sistemas de cronometragem. Isso sem falar em tudo o que é voltado para tecnologia da informação e comunicação, em uma época em que o visitante quer divulgar, de forma quase imediata, o que está vendo e vivenciando em sua estada no País.
Mas é preciso avaliar que o impacto não será o mesmo em todas as cidades-sede. “Em São Paulo, uma cidade que já abriga grandes eventos internacionais, o movimento previsto durante a realização da Copa será muito próximo ao registrado em outras ocasiões”, ressalta o consultor do Sebrae-SP. “Um estudo inicial mostrou que a Copa irá representar o equivalente a dois Grande Prêmio de Fórmula 1 somados a três paradas GLBTS diluídos durante os trinta dias”.
Outro fator importante levantado por Desie é o fato de a Copa ser um evento privado, ou seja, só empresas que adquirirem licenciamento é que poderão colar produtos e serviços ao Mundial, algo inviável para pequenos empreendimentos devido ao alto custo. “A saída está ou constituir um consórcio de pequenas empresas para ganhar escala ou traçar uma estratégia para se tornar fornecedora da grande empresa licenciada”, comenta.
Para achar a oportunidade correta, a recomendação de Desie é que o empreendedor mantenha-se permanentemente informado sobre tudo o que envolve os dois eventos. “Um acompanhamento atento irá revelar onde estão as grandes chances e quais são os pacotes de estímulo lançado pelos órgãos públicos que podem ser aproveitados".
Legados de uma grande vitrine
O momento é favorável para se pensar em soluções inovadoras e novas linhas de produtos. A ressalva é a de que eles precisam, necessariamente, ser sustentáveis após as competições. Campello cita uma linha de sorvetes de frutas típicas brasileiras que está sendo desenvolvida por uma cooperativa baiana exatamente para apresentar os sabores exóticos ao público estrangeiro, negócio que tem potencial de ser mantido posteriormente para consumo interno.
O mesmo pode-se dizer de todo o investimento realizado no turismo e na capacitação do varejo. Tudo está sendo feito pensando na imensa vitrine na qual o Brasil está se expondo ao sediar esta série de eventos e nos dividendos futuros desta exposição. A linha da geração de negócios exportadores não foi esquecida. No caso da Bahia, já está no calendário uma feira de negócios para apresentar o que produzem e oferecem os 417 municípios do Estado.
“Vamos estar completamente expostos, para o bem o para o mal. O País tem de assumir este risco e os empreendedores sua parte”, convoca Desie. Ele lembra que independente da perspectiva ou não de crescimento enxergada por cada gestor, todos os empreendimentos localizados nas cidades impactadas estarão, de forma direta ou indireta, vivenciando a realização da Copa e influenciado a impressão sobre o Brasil.
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