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Ser empreendedor demais não é bom

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Marcos Hashimoto

Muito se fala sobre empreendedorismo hoje, sobretudo enaltecendo a figura do empreendedor como sendo uma pessoa repleta de qualidades invejáveis como inovador, líder, arrojado, seguro, assertivo, otimista, persistente, entre várias outras que contribuíram para se construir o mito de que o empreendedor é um grande herói. Hoje muitos se comparam a este perfil, querem ser empreendedores, enfatizam suas competências empreendedoras. Cada vez mais anúncios de emprego listam a atitude e o comportamento empreendedor como qualidade desejável. Todos querem ser reconhecidos por esta qualidade, embora poucos na verdade a possuam.

Bem, na semana retrasada, recebi um email de um ex-aluno que reconheço como verdadeiro empreendedor. É pró-ativo, dinâmico, super ativo, inteligente, com grande capacidade cognitiva, traços de liderança, criativo e influente. Ele me contou que participou de um processo seletivo de uma grande multinacional e suas competências empreendedoras o ajudaram a avançar por todas as etapas do processo, até que chegou na entrevista com aquele que seria seu futuro chefe. Não passou! Segundo o entrevistador, o candidato era empreendedor demais. ‘Empreendedor demais!!!!`, quase ouço meu aluno gritando no email. 'Como alguém pode ser ‘empreendedor demais?’ escreve inconformado.

Como tudo na vida em excesso não é bom, ser empreendedor, a despeito de tudo de bom que se fala, em excesso também não é bom. Deixe-me citar algumas explicações por meio das mais conhecidas competências empreendedoras:

  • a) Ser inovador demais significa que a pessoa não tem constância, não termina o que começa, vive tendo ideias, uma atrás da outra, o que compromete a capacidade de realização, pois sempre vai surgir uma ideia melhor do que a que ele está realizando;
  • b) Ser pró-ativo demais significa que a pessoa pode tomar decisões por conta própria sem a experiência e o conhecimento suficientes e assim acabar sendo precipitado e escolher caminhos inadequados;
  • c) Assumir riscos demais significa que a pessoa pode estar comprometendo recursos à toa, pode estar colocando muita coisa a perder e pode estar expondo demais pares, clientes e seu supervisor;
  • d) Ser persistente demais significa que a pessoa pode estar usando parâmetros errados que o levem a insistir demais em coisas que não valem mais a pena, podendo facilmente se tornar mera teimosia;
  • e) Ter autonomia demais significa que a pessoa pode ter dificuldade para trabalhar em equipe, dividir responsabilidades, confiar em outras pessoas. Tem menos paciência para lidar com pessoas menos capazes do que ele;
  • f) Ser autoconfiante demais significa que a pessoa pode ter uma visão distorcida da realidade, apoiar suas decisões demasiadamente em suas próprias intuições e se fechar às influências externas que o contradigam.

Além disso, é importante ressaltar que nem todas as empresas precisam de empreendedores em todos os cargos e funções. É como dizer que todas as posições de um time de futebol precisam ser preenchidas por craques como Kaká. Cada posição requer um perfil diferente e nem todos precisam ser empreendedores.

Por isso, digo ao meu ex-aluno que o fato de o futuro chefe ter dito isso traz indícios de que ele não se sente à vontade com um funcionário muito empreendedor em sua equipe. Convenhamos, não é fácil ser chefe de um empreendedor. Empreendedores são difíceis de lidar, são ousados, arrogantes, autossuficientes, querem ir sempre além do limite, esquecem regras e hierarquia com facilidade, estão sempre sonhando alto, têm dificuldade em realizar tarefas burocráticas, rotineiras e de controle, acabam se metendo em mais coisas do que são capazes de entregar. São, enfim, pessoas que podem trazer mais prejuízos do que benefícios e não é qualquer um que gostaria de enfrentar o desafio de ‘segurar’ ou ‘domar’ funcionários com perfil empreendedor.

Por último, ouso ainda afirmar que muitas pessoas se sentem ameaçadas por subordinados empreendedores. Muitos chefes que não são muito seguros de si não suportam alguém sob seu comando que brilhe mais do que eles. Pode parecer surpreendente, mas muitas pessoas com atitude empreendedora perdem o emprego justamente por aquela que deveria ser visto como sua grande qualidade. Já presenciei vários casos de funcionários empreendedores discriminados pelos colegas que relatavam críticas a este perfil para disfarçar a inveja por não deterem estes traços.

Portanto, vamos tratar de desmistificar esta ideia de que verdadeiros empreendedores são necessários e valorizados em qualquer lugar. Não me surpreendo se meu aluno for melhor sucedido em uma outra oportunidade semelhante se ele ‘esconder’ algumas de suas características empreendedoras.

Marcos Hashimoto é professor de Empreendedorismo e coordenador do CEMP (Centro de Empreendedorismo) do Insper Instituto de Ensino e Pesquisa, doutor em Administração de Empresas pela EAESP/FGV (Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getúlio Vargas), sócio-diretor da Lebre Consulting, ex-professor da Business School São Paulo. Seu site pessoal é www.marcoshashimoto.com. Para conhecer melhor o trabalho do CEMP acesse www.insper.edu.br/cemp

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